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A relação entre Salvador Dalí e Paris

5 de maio de 2017 às 12:54

Por Beatriz Prieto

A excentricidade fez a fama de Salvador Dalí. O pintor surrealista catalão nasceu em Figueres, cidade com ares bucólicos repleta de praças e casarões antigos, a cerca de 40 km da fronteira com a França. Fascinado por Freud e sua obra A Interpretação dos Sonhos, Dalí pintou quadros oníricos que flertavam, ao mesmo tempo, com a fantasia do inconsciente e com questões filosóficas sobre o ser e o tempo. A efervescência cultural de Paris na década de 20 o levou a viajar até a cidade luz e conhecer a panelinha de intelectuais prestigiados da época, entre eles Picasso, Miró, Hemingway, Luis Buñuel, além de sua futura mulher Gala, musa de muitos de seus quadros. A relação entre Salvador Dalí e Paris é cheia de curiosidades, eis aqui algumas delas:

O grupo de Montparnasse

Durante a primeira viagem para Paris, Dalí conheceu um de seus principais ídolos, Picasso, que já inspirava seu estilo há algum tempo. Ao entrar no estúdio do pintor na rua La Boétie, Dalí soltou, contente: “Vim vê-lo antes de ir ao Louvre”, e Picasso replicou “Fez muito bem”. Os espanhóis seguiram com uma amizade intensa, comprovada por várias cartas trocadas entre os dois. 

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Carta enviada por Pablo Picasso a Dalí

Já na segunda visita à capital francesa, ele foi aceito no grupo surrealista de Montparnasse, encabeçado por André Breton, autor do Manifesto Surrealista. Em 1939, porém, o catalão foi expulso do métier surrealista, composto também por Max Ernst e Paul Éluard, por causa de divergências políticas com o grupo. Sabendo de sua fama, Dalí disse, com certa prepotência: “A única diferença entre Eu e os Surrealistas é que Eu sou o Surrealismo”. Très snob, non?

A ascensão do sucesso

É inegável que o pintor construiu uma rede de contatos ímpar em Paris, e já na década de 30 teve sua primeira exposição solo na Galerie Pierre Colle, onde colocou em mostra um de seus mais famosos quadros “A persistência da memória”, com os relógios derretidos. E não se debruçou só sobre a pintura: o filme L’âge d’or, de Luis Buñuel, contou com a sua parceria e foi exibido no Studio 28. A cena abaixo, do filme contemporâneo “Meia-Noite em Paris”, dirigido por Woody Allen, ilustra a relação de Dalí junto a outros intelectuais durante a efervescência cultural da capital francesa:

Conheceu Gala em Paris

A história de Dalí e Gala começou em Paris, e os dois se conheceram quando o pintor viajou à capital para a apresentação do filme Un Chien Andalou, no qual Gala participou da produção junto a Luis Buñuel, o diretor. À época, ela era esposa de Paul Éluard, integrante do grupo surrealista de Montparnasse. Vinda de terras distantes, Gala trocou a Rússia por Paris no momento da Revolução Russa de 1916, e também Éluard pela figura performática e misteriosa de Dalí, com quem manteve um relacionamento aberto até o fim da vida. Ela teve um papel muito importante na divulgação e venda  dos trabalhos de Dalí, e era vista andando de metrô para cima e para baixo com suas obras embaixo do braço.

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Leda Atômica, de Salvador Dalí

A parceria não era somente voltada ao trabalho. A adoração de Dalí por Gala era nítida, já que a mulher adornava muitos de seus quadros, entre eles o icônico “Leda Atômica”, em que Gala aparece como uma figura mítica, retratada nua sobre um pedestal. A paixão era tamanha que Dalí chegou a presenteá-la com um castelo na província de Girona, na Catalunha, local onde Gala morou por um tempo, e também onde está seu túmulo.

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Gala e Dalí já passada a juventude

O museu exclusivo em Montmartre…

No coração de Montmartre está o Espace Dalí Paris, que reúne a maior coleção de obras do artista na França. Há três mostras permanentes, que exibem para o deleite dos curiosos não só várias ilustrações, como também uma extensa coleção de suas esculturas. Se já é incrível ver os desenhos no papel, a visão 3D que as esculturas proporcionam parecem dar vida aos seus delírios, vide a obra l’Eléphant Spatial aux pattes infinies, que chama atenção a qualquer par de olhos que entre no museu.

Expsition à l'éspace Dali - 11 rue Poulbot - 75018 - Paris

Espace Dalí em Montmartre, em Paris

… e também na Bélgica!

No mundo dos francófonos, não é só a França que possui parte da coleção do pintor. A Bélgica tem o Museum-Gallery Xpo: Salvador Dalí Marquis de Pubol, em Bruges, capital da província de Flandres. Por lá estão ilustrações. e também esculturas em exibição permanente. O prédio de arquitetura medieval também é uma obra à parte.

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Fachada do Museum Salvador Dalí em Bruges, na Bélgica