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Curiosidades sobre o Marquês de Sade

29 de maio de 2017 às 17:39

Por Beatriz Prieto

Se tem alguém que se encaixa perfeitamente na definição “polêmico”, é sem dúvida Marquês de Sade. O nobre chegou a ser promovido a oficial de infantaria durante o reinado de Louis XV e podia ter tido uma vida confortável e sem escândalos, mas sua imaginação libertina acabou por deixar a moral da época corada de vergonha. A ânsia em satisfazer os desejos mais luxuriosos da carne renderam não só livros clássicos como Os Cento e Vinte Dias de Sodoma, como também festas despudoradas em seu castelo, onde as aventuras eram tão intensas que chocariam até mesmo o mais moderninho dos amantes de hoje. Conheça algumas façanhas desse marquês:

Libertinagem fora dos livros

Antes mesmo de se dedicar a escrever novelas e contos apimentados, Sade já dava sinais de que sua imaginação não se realizava somente na literatura. Mesmo casado com uma mulher da alta sociedade da época, ele continuava a se encontrar com prostitutas e a realizar festas em que podia revelar todos os seus fetiches entre quatro paredes. O marquês, porém, valia-se de sua imunidade à lei, por ser nobre, e com isso praticava várias agressões às mulheres prostitutas que contratava para participar de suas orgias. Não é à toa que o termo “sadismo” deriva de seu nome.

Uma das festas no castelo de Sade, em Provence, teve a participação da própria esposa, e em outras foi acusado dar afrodisíacos perigosos a seus convidados. Muito longe de ser um homem virtuoso, ele acabou exacerbando os limites da liberdade, e com isso despertando verdadeiro alvoroço na aristocracia francesa. Os dias “sem lei” de Sade iriam chegar ao fim com sua prisão na Bastilha, a mais famosa da França, onde permaneceu por dez anos. Durante esse período enclausurado, com sua vida libidinosa apagada, ele começou a escrever.

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Marquês de Sade preso, em gravura do século XIX

A literatura na prisão

Foi na Bastilha que Sade escreveu as quase 400 páginas de seu compilado gigantesco de bizarrices sexuais, Os Cento e Vinte Dias de Sodoma. Para não ter a obra extraviada pelos guardas, ele a escreveu em pequenos pedaços de papel, com letra minúscula, guardados nas frestas da janela. Descrevendo-a como “a história mais impura que já foi contada desde o início do mundo”, as páginas traziam tabus e crimes sexuais, em um relato de quatro personagens da elite, entre eles um um militar graduado e um religioso, que se trancaram em um castelo para realizar os mais diversos prazeres. A provocação era nítida: Sade queria fazer tremer a base dos valores morais, que segundo ele inibiam as satisfações sexuais para civilizar os seres.

Vídeo sobre o manuscrito de Os Cento e Vinte Dias de Sodoma:

Com a tomada da Bastilha durante a Revolução de 1789, o marquês foi transferido para um sanatório, onde passou seus últimos dias, pensando que teria perdido para sempre a sua obra escrita na prisão. Ele morreu sem saber que a encontraram, mas foi somente em 1935 que a publicaram. A literatura clandestina de Sade, que incluía também contos e cerca de 50 novelas, não teve grande circulação, e era levada às escondidas debaixo dos braços. Muito provocador, poucos teriam a ousadia de dizer que gostavam de ler algum de seus escritos “malditos”.

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Manuscrito de Os Cento e Vinte Dias de Sodoma, exposto no Museu das Letras e dos Manuscritos, na França

Inspiração para muitos

Sade representou a vanguarda da literatura erótica, e de toda a imaginação e simbolismo sexual que iria alimentar artistas nos séculos posteriores, a exemplo do catalão Louis Buñuel. Em Un Chien Andalou e L’âge d’or, feitos em parceria com Salvador Dalí, Buñuel se valeu do sadismo do marquês, com a personagem que corta o olho com uma navalha, no primeiro, e uma festa-orgia no castelo de um duque, no segundo. 

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Un Chien Andalou, de Louis Buñuel

Já outros cânones, como Victor Hugo e Honoré de Balzac, também liam Sade, de acordo com o autor da biografia do marquês, Gonzague Saint Bris, em entrevista à BBC. E por que não pensar que outros grandes nomes, como Freud, se apropriaram de sua obra para compor ensaios sobre a fantasia psíquica? Todo o alcance da literatura de Sade deve ser levado em conta, ainda mais quando o tabu sobre o sexo é tanto que se mantém até hoje, corando outros rostos bem distantes da época da monarquia.