Curiosidades sobre o Viaduto do Chá

29 de março de 2017 às 18:39

Por Beatriz Prieto

O Viaduto do Chá é um dos símbolos da capital paulista que nos remete aos tempos áureos do café, quando a cidade começou a ser pontuada por várias mansões e teatros. O vai-e-vem frenético de bondes também era um sinal do crescimento, já que utilizavam o viaduto para levar os trabalhadores tanto ao centro velho, constituído pela Praça da Sé, como ao centro novo, do qual faz parte a Praça da República.

Mas poucos sabem que essa obra engenhosa, bem ousada para os padrões da época, foi projetada pelo francês Jules Martin no ano de 1877, tendo sido inaugurada em 1892, somando 140 anos desde que foi concebida pela imaginação de Martin. O viaduto foi o primeiro a ser construído em São Paulo e leva o nome por causa das extensas plantações de chá da Índia que cercavam a cidade. Parece bem difícil de imaginar, vous êtes d’accord? Veja algumas curiosidades:   

O arquiteto francês

Jules Martin era, além de arquiteto, litógrafo e, em 1868, chegou à São Paulo depois de um convite de seu irmão. Suas habilidades o fizeram produzir o primeiro “mapa da província de São Paulo”, e o entusiasmo com a cidade só foi aumentando até que propôs o projeto de construção do viaduto sobre o Vale do Anhangabaú. Urbanista que era, ele quis facilitar a travessia do vale, que já na época tinha uma veia comercial, como permanece hoje o centro da cidade. Alguns entraves foram colocados à frente da construção, até porque a mansão do Barão de Tatuí teve de ser em parte desapropriada por causa da obra, mas depois de alguns acordos, a construção saiu do papel.

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O viaduto concebido pelo francês Jules Martin

Até 1897, um pedágio de três vinténs era cobrado para quem quisesse atravessá-lo, e os boatos de que o viaduto trepidava com o passar dos carros podem ser vistos no trecho do livro São Paulo Naquele Tempo 1895-1915, de Jorge Americano: “Eu mesmo, sempre inclinado a confiar na ciência e na técnica, tive receio, nos primeiros tempos. Toda a estrutura do Viaduto trepidava quando passava o bonde elétrico”. Mon Dieu! Com os passar dos anos, outras soluções foram pensadas para que os bondes pudessem passar com segurança, além de não causar vertigem nos pedestres, que podiam ver a altura do viaduto por entre as estacas de madeira enquanto andavam.

A arquitetura do viaduto

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Viaduto projetado anos depois por Elisário Bahiana

A estrutura metálica com assoalho de madeira, que tinha  240 metros de comprimento, veio da Alemanha e é muito diferente da arquitetura que vemos hoje, já que, na década de 30, o viaduto acabou ficando obsoleto dado a chegada dos bondes elétricos e a saturação do trânsito. Oui, o caos no tráfego acontece desde aquele tempo! O projeto de Martin foi, então, substituído pelo de Elisário Bahiana, arquiteto que escolheu o estilo art-déco para dar graça ao viaduto, tal qual o vemos hoje. Demolido para ser reconstruído do zero, o antigo “Viaduto dos Três Vinténs” passou a ter o dobro de largura, além de ter a estrutura em concreto, garantindo que não trepidasse como nos velhos tempos. Ainda bem!

Outras influências francesas

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Parque do Anhangabaú em 1915

O Parque do Anhangabaú é praticamente um quintal do Viaduto do Chá, na parte debaixo, e teve o projeto desenvolvido por Joseph Antoine Bouvard, outro francês a quem foi endereçada a missão de embelezar a cidade. Lá estão esculturas, chafarizes e uma área verde que tenta dar leveza à robustez do concreto do prédios. Conhecido com “Plano Bouvard”, o projeto do urbanista contou também com outro jardim, dessa vez na Várzea do Carmo, posteriormente chamado Parque D. Pedro, e também com a praça Buenos Aires, em Higienópolis.

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O Parque do Anhangabaú atualmente