Fait Divers na França e suas origens

6 de fevereiro de 2017 às 11:21

Por Beatriz Prieto

A excentricidade sempre foi um fator usado para atrair público e chamar a atenção. Não seria diferente com a imprensa, que no início do século XIX, na França, começou a dar espaço aos folhetins nos jornais que circulavam na época. Estas narrativas literárias, que funcionavam como uma novela escrita, pretendiam cativar o leitor e fazê-lo acompanhar o desenrolar da história durante as várias edições do periódico. Alexandre Dumas, por exemplo, teve o clássico O Conde de Monte Cristo publicado em formato de folhetim antes de ser lançado em livro.

Com o passar do tempo, porém, a literatura de jornal ganhou ares mais arrojados com os fait divers, que nada mais eram que fatos reais e inusitados que poderiam ter acontecido com qualquer um. Essa realidade um tanto quanto bizarre e apelativa se aproximava do público e causava um misto de espanto e descrença, condições que não podem faltar em uma boa receita de fait divers. Listamos aqui três fait divers franceses para você entender o que é o gênero:

Pousos e decolagens de discos voadores são proibidos

Portrait of an alien in dark background.


Roland Barthes, sociólogo francês, já alertava em seu ensaio Structure du Fait Divers, escrito em 1966: “Não há fait divers sem espanto”. E essa lei, que vigorou na cidade de
 Chateauneuf-du-Pape, em Provence, não é. Reconhecida pelos excelentes vinhos que produz, a lei era ainda mais específica, já que proibia os discos de pousarem sobre suas vinícolas, patrimônio do lugar. Ela surgiu em 1954, depois que um vinicultor disse ter avistado dois marcianos no jardim, vestidos com trajes de mergulho em alta profundidade. Ele até tentou conversar com os moradores da galáxia, mas um feixe de luz verde o paralisou. O prefeito local, cauteloso, decidiu então criar a ordem. Só faltou encontrar um jeito de divulgar a novidade aos extraterrestres, né?

Morrer é ilegal

morte-certo

Por falta de espaço no cemitério da cidade de Le Lavandou, em Provence, o prefeito determinou que a morte deveria passar longe do lugar e procurar freguesia em outras bandas. A Lei do ano 2000 proibia que os habitantes morressem dentro do limite da cidade até que outro cemitério fosse construído, sendo que cerca de um terço dos 5.500 residentes tinham mais de 65 anos, e uma média de 80 morriam ao ano. O prefeito admitiu que a lei municipal era um truque publicitário, mas que estava funcionando: “Ninguém morreu aqui desde que foi aprovada, e espero que fique assim”, revelou na época. Esperto, não? Porém, a Lei não foi uma invenção do prefeito, e sim baseada em outra idêntica, lançada em 1999 em uma cidade da Espanha, também pelo mesmo motivo.

Epidemia de dança

Original caption: Dancing mania sweeps through Europe during medieval plague. Penitents pray for mitigation of plague. Undated illustration. --- Image by © Corbis

A cidade de Estrasburgo, na Alsácia, foi palco de um fato um tanto quanto bizarro nos idos de 1518, a chamada dançomania, que acometeu cerca de 400 pessoas. Tudo começou quando uma moradora, chamada Frau Troffea, começou a dançar do nada, no meio da rua. A princípio, parecia engraçado, e muitos curtiram sua performance espontânea. Mas o tempo foi passando, e depois de 6 horas, ela continuava a dançar, eufórica. O mais interessante é que outras pessoas juntaram-se a ela: em uma semana, eram 34, e ao final de um mês, somavam 400 moradores, que freneticamente dançavam até a morte, literalmente, causada pela exaustão. Até hoje, ninguém soube explicar o que aconteceu, mas o argumento mais válido é ter sido uma espécie de contaminação cultural, mais pautada em uma situação social atípica do que em qualquer tipo de doença mental, já que acometeu centenas de pessoas. Très bizarre!